
Você já teve a sensação de que, por alguns instantes, era como se outra pessoa tivesse tomado conta de você? Como se uma reação tivesse acontecido antes mesmo que pudesse pensar sobre ela? E, quando percebeu, você já havia dito ou feito algo e se perguntou: “Por que eu fiz isso? Parecia que não era eu.”
Para Jung, experiências como essa podem ser compreendidas a partir do conceito de complexo.
Os complexos são núcleos de conteúdos psíquicos carregados de energia emocional que podem adquirir certa autonomia em relação ao ego. Quando são ativados, podem influenciar nossa percepção, nossos sentimentos e nossas atitudes, fazendo com que reagimos de maneira que, posteriormente, nem sempre reconhecemos como sendo nossa.
Jung (2012, p.14) afirma que “o complexo se manifesta independentemente da vontade, podendo inclusive mostrar-se diretamente antagônico às tendências conscientes”.
Um complexo possui uma base arquetípica, mas vai ganhando forma ao longo da história de cada indivíduo. Podemos imaginá-lo como um quebra-cabeça: cada experiência relacionada a determinado tema acrescenta uma nova peça. Relações, memórias, afetos, conflitos, perdas, expectativas e experiências familiares vão se organizando em torno desse núcleo.
Assim, quando alguma situação presente se relaciona com aquilo que está associado ao complexo, essa estrutura pode ser ativada. É como se uma experiência atual encontrasse uma antiga rede de significados e colocasse em movimento toda a energia emocional acumulada ao longo da história.
O complexo materno
Um exemplo é o chamado complexo materno.
A imagem da mãe não se limita necessariamente à mãe biológica. Ela pode envolver a pessoa que exerceu a função de cuidado, experiências de maternagem, a relação com a família, experiências de proteção ou abandono, nutrição, acolhimento, dependência e autonomia.
Além da história pessoal, essa imagem também se relaciona com o arquétipo da Grande mãe, uma dimensão mais ampla e coletiva da experiência humana. A Grande Mãe pode aparecer simbolicamente associada à mãe, à terra, à natureza, à nutrição, ao acolhimento, à proteção e, em determinadas configurações, àquilo que aprisiona, devora ou impede o crescimento.
Entretanto, a maneira como cada pessoa vivencia e simboliza essas imagens é singular. A cultura, a família, a comunidade e a própria história de vida participam da formação dessas representações.
Por isso, duas pessoas podem viver experiências aparentemente semelhantes e desenvolver relações muito diferentes com o mesmo símbolo.
Quando o complexo é ativado
Imagine que alguém tenha construído, ao longo da vida, determinadas associações em torno da figura materna. Em determinado momento, encontra uma situação aparentemente simples: alguém cuida dela, alguém exige cuidado, presencia uma dinâmica familiar ou percebe em outra pessoa uma atitude que lembra sua própria história.
O acontecimento presente pode funcionar como um gatilho.
Não significa que a pessoa esteja simplesmente “lembrando” do passado. É como se toda uma configuração psíquica fosse reativada no presente. As emoções, expectativas e formas de interpretar a situação podem ganhar uma intensidade que parece desproporcional ao que está acontecendo naquele momento.
É nesse sentido que podemos compreender a sensação de que “não fui eu que fiz”.
O ego continua existindo, mas, naquele instante, um complexo pode assumir grande influência sobre a consciência. Ele passa a ocupar o primeiro plano e a orientar a maneira como percebemos, sentimos e reagimos.
Depois que a intensidade diminui, o ego pode recuperar sua posição e então surgir o estranhamento:
“Por que reagi daquela maneira?”
Para Jung, reconhecer esses momentos é importante porque aquilo que parece ser um “outro” dentro de nós também faz parte da nossa própria psique.
O objetivo não é expulsar os complexos, como se fosse possível simplesmente eliminá-los. O caminho é torná-los mais conscientes.
Quanto mais conseguimos perceber aquilo que nos possui momentaneamente, maior pode ser nossa capacidade de escolher como responder.
Talvez, então, aquela sensação de que “outro tomou conta de mim” seja justamente um convite para perguntar:
Quem, dentro de mim, estava falando?
E, principalmente:
O que essa parte de mim está tentando revelar?
Referências:
JUNG, Carl Gustav. A prática da psicoterapia: Ab-reação, análise dos sonhos e transferência. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 16/2).
